Entrevista with Fanny Ardant

- O que é que a fez querer adaptar para o cinema "Le Divan de Staline" (Seuil, 2013), o romance de Jean-Daniel Baltassat?
Fanny Ardant: Havia em "Le Divan de Staline" uma concordância entre a minha paixão pela Rússia, o meu interesse pela época trágica da União Soviética e a resistência subterrânea que ela provocou. Por outro lado, havia o amor que tenho pelo Gérard Depardieu. Tinha encontrado um papel à sua medida. Na história que eu queria contar, o Gérard traria a sua ambiguidade, o seu conhecimento do ser humano, a sua jovialidade e sedução, a sua inteligência brilhante e também, apesar de tudo, a sua vulnerabilidade.

- De onde vem o seu interesse pela Rússia?
A partir dos 15 anos, comecei a ficar fascinada pela Rússia, pela sua história, música, literatura e poesia. Comecei por ler os grandes clássicos, depois os dissidentes e os poetas. E tudo me tocou de uma forma extraordinária. De início, os heróis como o príncipe Myshkin, os irmãos Karamazov, Stavroguine, Natacha, Anna Karénina, Oblomov, etc... e depois conheci os poetas, Pushkin, Essénine, Ossip Mandelstam, Vladimir Maiakovski, Anna Akhmatova, Marina Tsvetaieva... O seu espírito de resistência fascinou-me. As suas vidas eram poemas por si só. Só na Rússia é que os poetas são assassinados porque causam medo ao poder. Durante a minha juventude, os meus estudos, reuniões, tristezas e alegrias, ilusões e fracassos, eles ajudaram-me a viver.

- Em que medida?
Graças a eles, aprendi que o mundo interior é mais importante que o mundo exterior, aprendi como resistir quando se perde tudo, excepto a alma, viver clandestinamente em mundos onde o poder, a fama, o dinheiro e a subjugação não têm poder sobre si.
Durante os anos trágicos da ditadura, muitos dissidentes salvaram-se apesar de terem sido presos ou das perseguições, ao recitarem poemas que sabiam de cor. Resistiram à escuridão à sua maneira.
No início, eu queria chamar ao filme "Atrás de mim uma gaiola vazia" em homenagem aos versos de Osip Mandelstam "... À minha frente vultos de névoa espessa e atrás de mim uma gaiola vazia". Versos que coloquei no final do filme.

- No romance de Jean-Daniel Baltassat, Estaline, três anos antes de sua morte, em 1950, instala-se em Borjomi, Geórgia, no antigo palácio do Duque Mikhaïlovitch. Por que é que não datou o filme e precisa o local onde se passa a acção?
Eu queria contar uma fábula sobre a relação entre poder e arte, aquilo que o poder faz nascer nos que o exercem e nos que o sofrem. Eu queria fugir do documentário, a verdade interessa-me mais do que a realidade. Durante as repérages, procurei uma mansão aristocrática. Toda a nova autoridade se instala nos símbolos do poder da autoridade que é deposta. A República toma para si os castelos dos reis e da aristocracia. Os bolcheviques requisitam os símbolos do poder e da riqueza.
Cheguei ao Palácio Hotel do Buçaco e soube imediatamente que este seria o cenário perfeito. Uma vez que queria contar um conto, este castelo do "Barba Azul", as muralhas e torres de lendas de cavalaria, com gárgulas como nas catedrais, era exactamente um lugar fora de qualquer contexto. Eu queria contar a história numa unidade de tempo, de lugar e acção. As portas do palácio abrem-se no início, como "era uma vez" e fecham-se novamente no fim da história. Entre o conto e a fábula.

- Conseguiu recriar dentro do palácio um ambiente pesado, carregado de mentiras, medo, submissão, humilhação, manipulação, próprio ao universo bolchevique.
Sempre quis opor o indivíduo ao grupo, ao partido, à sociedade, ao pensamento comum.
A sociedade é aqui representada pelos guardas armados, pela polícia secreta, as empregadas domésticas, os cozinheiros. Movem-se sempre todos em conjunto como uma massa, como uma entidade única, uma forma de simbolizar a liberdade face à arregimentação, a identidade face ao grupo.

- Como é que Gérard Depardieu reagiu à ideia de interpretar Estaline?
O Gérard é curioso em relação a tudo. Ele explora caminhos que não conheceu. Ele confiou em mim, porque a vida é uma aventura. Interpretou Estaline como poderia interpretar uma personagem de Shakespeare, com a ambiguidade e a complexidade das personagens enigmáticas, monstruosas mas humanas, muito humanas.

- Fisicamente, Depardieu, não se parece realmente com Estaline.
Eu não queria fazer um documentário. Não era primordial que Gérard se parecesse excatamente com Estaline. O importante era conseguir o arquétipo, a imagem de Estaline que existe na memória colectiva.
Para voltar sempre à fábula, ao conto, tanto é Estaline e ao mesmo tempo não é o Estaline dos livros de História e dos documentários.
Eu disse ao Gérard: Estaline fala com uma doce voz de barítono e tem sempre um meio-sorriso como os felinos.

- Como é que dirigiu Gérard Depardieu?
Gérard é um actor genial. Possui uma natureza complexa, rica e inesperada. Ele entra na pele de uma personagem com aquilo que sabe e com o que não sabe.
Há muitas verdades. Quando contamos uma história fazemos entrar os actores num mundo que é seu, com as suas obsessões, a sua visão sobre as coisas e os seres, que começa com eles e acaba com eles. Eles jogam o jogo que lhes é proposto. Eu gosto da ideia de batalhar por um silêncio, um sorriso, um movimento dos olhos ou da mão, os detalhes são tudo, porque tudo já foi dito.

- "O Divã de Estaline" é o primeiro mergulho na intimidade quimérica do carrasco. À noite, no seu palácio, Estaline alonga-se no divã - estranhamente idêntico ao de Freud em Londres -e conta os seus sonhos à sua amante, Lidia Semoniova Vodieva, interpretada por Emmanuelle Seigner.
Estaline pediu à sua amante que lhe trouxesse "A Interpretação dos Sonhos", de Freud. Estaline vem muitas vezes a este palácio e percebe que o divã em que ele dorme no seu pequeno escritório é muito semelhante ao de Freud em Londres. Estaline mostra uma imagem de um jornal Inglês a Lidia e mostra-lhe o sofá, acrescentando que "este é o lugar onde os burgueses perversos se deitam para debitar os seus disparates neuróticos". Estaline será o paciente e Lidia irá decifrar os seus pensamentos. Desde o início, ele diz tudo, quer saber como funciona, como age Freud para que eles confessem, para extorquir os segredos destes burgueses.
Em Estaline, há uma mistura entre curiosidade científica e o gosto pelo jogo do gato e do rato, o prazer de lidar com materiais perigosos que podem explodir a qualquer momento, na cabeça dos que o ouvem. Ouvir os segredos de Estaline é condenar-se. E Lidia sabia-o.

- Que análise retira dos seus sonhos?
No seu primeiro sonho, Estaline conta a Lidia uma memória de infância, a idade da inocência. Mesmo Estaline foi uma criança. Quando Lidia lhe pergunta se a perda da inocência é inevitável, Estaline recusa responder, é a pergunta que todos nós nos colocamos, até mesmo os monstros. É a perda inconsolável.

- E no segundo sonho?
Ele sonhou com sua esposa, Nadejda Sergueïevna Allilouïeva, que realmente amava. Ela suicidou-se, mas a versão oficial foi que morrera de apendicite. Lidia sabe bem que é uma mentira.
"Este é o arquétipo da mulher que te assusta, uma mulher suficientemente livre para decidir quando quer morrer", diz Lidia a Estaline, para quem o suicídio é uma traição. Não ter medo da morte é a liberdade suprema sobre a qual nenhum carrasco pode ter força. E Lidia atira a Estaline a verdade sobre a sua esposa, e também sobre ela, que entende que o seu tempo é limitado.

- Através de Lidia, faz um belo retrato de uma mulher, interpretado com sensibilidade e delicadeza por Emmanuelle Seigner.
Eu sempre gostei da Emmanuelle. Ela é clara e misteriosa, enérgica e sensual. Ela pode sorrir como uma vamp e de repente voltar a tornar-se uma criança. Isso faz-me pensar na terra.

- Deu à personagem de Lidia mais importância do que ela tinha no romance. Porquê?
A personagem de Lidia permitiu-me fazer viver uma mulher que acreditava na utopia da Revolução Bolchevique, que estava submissa de corpo e alma ao poder de Estaline, que perde gradualmente as suas ilusões, vê a realidade do terror vermelho, tentando manter-se à tona, compreende que perdeu a sua alma, escolhe dizer não e decide acabar com aquilo.
Se Estaline pede a Lidia que lhe traga o livro de Freud é porque ele sabe que ela é muito inteligente. E mesmo que se trate de psicanálise barata, é um adversário de peso. Ela é capaz de discorrer e entender que desvendar os sonhos e os segredos de Estaline é uma condenação à morte.

-Precisamente, em paralelo, transparece o destino de Danilov (Paul Hamy), prestes a vender a sua alma ao diabo.
Danilov chega a um mundo no qual não conhece os códigos. E ele acredita ser o mais forte. Ele representa o cidadão comum, ingénuo, quer ter sucesso, é ambicioso, disposto a um compromisso, não completamente desonesto, mas também não é um herói... E é colocado numa situação extrema: fazer o retrato de Estaline. Esta é uma oportunidade inesperada para se tornar famoso. Danilov representa a posição do artista face ao poder. Se começarmos a fazer compromissos, renegar-nos a nós próprios, não estamos a perder a alma e a nossa arte? É Lidia que coloca a questão: "E tu, o que fizeste para perder a alma? ". É a eterna questão. Todos nós podemos colocá-la em cada fase da vida.

- Que olhar tem sobre o passado de Danilov?
Com a morte dos seus pais, Danilov foi adoptado, em criança, por Moukhina, uma grande escultora da era soviética, que existiu realmente. Ela é a autora da famosa escultura " O Operário e a Camponesa". Ela descobriu em Danilov um dom para o desenho e acredita que ele poderia tornar-se o orgulho da arte da União Soviética. Para ela, ele pode ser um exemplo da reeducação que permite a nova sociedade comunista. O regime tornou-o um bom soviético.

- Ao longo de todo “O Divã de Estaline”, existe este jogo cruel e perverso em torno da mentira salvadora e da verdade que destrói.
Estaline revela cinicamente a Danilov o terrível fim dos seus pais nos campos do regime. Estaline diverte-se com este dilema perverso. Será que a verdade fará nascer um novo homem, disposto a morrer para defender os seus pais ou um cínico ambicioso disposto a todas as cedências para ser bem-sucedido? Estaline sempre se intitulou o "engenheiro das almas". O pouco tempo que passa com Danilov permite-lhe perceber o seu oportunismo e o seu desejo de se submeter. A verdade poderia ter construído a dignidade de Danilov, mas levá-lo-ia à prisão e à morte. O cinismo de Estaline (ou de qualquer poder arbitrário) é colocar o indivíduo face à sua própria cobardia e dignidade.
Mas ainda voltando à relação entre Estaline e Ossip Mandelstam é a posição irredutível do poeta que torna o ditador impotente. Mandelstam irá morrer, é claro, mas permanecerá eterno por ter dito não. Danilov faz um pacto com o diabo, com Estaline. Ele é manipulado e todo o pacto com o diabo, com o poder, mais cedo ou mais tarde acaba mal.

-No filme, não hesita em usar a metáfora, especialmente em torno da obra em aço de Danilov e dos efeitos de espelho.
Muito jovem, eu era assombrada pela noção de reflexo, como uma mise en âbime. Em que é que nos reflectimos? Ao que é que, de repente, pertence o meu reflexo num quadro, numa imagem, numa vitrina ou num espelho? Numa das últimas cenas do filme, Estaline visita a oficina de Danilov, descobre o seu reflexo na criação do artista, e volta-se de forma violenta, como se tivesse visto passar um fantasma, os seus fantasmas, a sua acção, os seus assassinatos? Mesmo Estaline tem medo... E o medo, como ele sublinha "é o maior inimigo do homem" …

- Há também uma frase que surge como tema recorrente em momentos-chave do filme: «Olharmo-nos é persistir em ver o invisível da alma que é necessária fazer renascer para compreender a verdade».
Li esta frase num romance de Chrétien de Troyes. Manipulei-a um pouco. Quando nos olhamos, paramos e vemos para além da aparência física, vemos o outro que nos habita e nasceu de nós e das nossas ações.

- A sessão de cinema é um episódio muito evocativo da personalidade de Estaline.
Estaline amava os westerns americanos, os homens solitários que cavalgavam durante horas nas planícies infinitas.
Identificava-se, sem dúvida, com o homem só face a um destino a cumprir.
Entre os filmes que vão ver, o capitão Dovitkine (Tudor Istodor), o projeccionista, sugere um filme alemão, "O Anjo Azul" de Sternberg, filme de guerra após a derrota da Alemanha. É uma escolha artística. Estaline gosta deste capitão do Exército Vermelho. Ele deixa-se levar e começa a ver a o filme. Mas rapidamente, Estaline identifica-se com o professor ridicularizado pela sua amante (Marlene Dietrich) e o seu pretendente. Estaline não pode suportar esta imagem que remete para o seu próprio ciúme contra a cumplicidade entre Lidia e Danilov. Fica furioso com a possibilidade de que possam rir-se dele nas suas costas, e pune todos os que acham divertido ridicularizá-lo ou contrariá-lo.

- Para além do formidável General Vlassik (François Chattot), de Poskrebyshev (Xavier Maly), do secretário particular de Estaline, a personagem de Varvara (Luna Picoli-Truffaut), a empregada, é particularmente interessante.
Ela é na verdade uma agente secreta do MGB. A tenente Machkova revela a sua identidade quando vem prender Lidia.
Varvara entrou na vida privada de Lidia fazendo passar-se por empregada doméstica. Elas tiveram tempo para conversar, para contar confidências, mesmo para falar de canções de amor. "Nos teus grandes olhos negros, eu perdi-me, aguardo o teu olhar com o coração suspenso", canta Lidia no momento da prisão depois de declarar: "É a última esperança que me abandona, a de sobreviver." Através da personagem de Varvara- Machkova eu queria mostrar que nesta sociedade, neste século “cão e lobo”, todo a gente joga um jogo duplo, são vítimas e carrascos, escondem-se e mentem. Varvara não é cruel por gosto, é parte de um sistema. É ao mesmo tempo dura e vulnerável. Ao ler a Estaline "O Conto do Czar Saltan", de Pouchkine como Lidia costumava fazer, ela sente que estando na linha de frente, vai estar em perigo.

- Estaline era um carrasco que também gosta de jardinagem enquanto pensa no poder, maneja a tesoura como se estivesse a cortar cabeças!
Estaline traça um paralelo entre a natureza e as grandes purgas, e salienta que "a natureza é feita de tal forma que tudo acaba por se estragar. As doenças atacam mesmo aquele que foi purgado e recuperou completamente. O mundo é apenas uma ferida em remissão permanente."

- A música ocupa um lugar importante em “O Divã de Estaline”. Porque escolheu a música de câmara de Chostakovitch ou a ária de Lady Macbeth " Vieni ! T’affretta "?
Chostakovitch representa para mim o artista que lutou e sobreviveu apesar do terror, sem abandonar nada do seu génio para agradar. Diz-se que ele estava sempre à espera de ser preso e que a mala estava pronta debaixo da cama. O Quarteto para cordas em Dó Menor desenrola-se ao longo da história, como uma ameaça e um consolo.
Estaline ouve a ária de Lady Macbeth que resume os poderes do mal pela ambição do seu marido: tornar-se rei. Callas tem na voz a loucura dos sonhos e o terror das visões.

- Você que adora tanto os símbolos e os signos, coloca nas mãos de Lidia a capa de um disco da pianista Maria Yudina. Quem era ela realmente?
Oponente do regime soviético, convertida à fé Ortodoxa, ela era admirada por Estaline! Maria Yudina é uma mulher extraordinária. Diz-se que uma noite, Estaline ouviu o concerto Nº23 de Mozart, interpretado por Maria Yudina. Ele gostou tanto da interpretação que pediu para ter um disco. O disco não existia. Houve uma noite em que a pianista e todos os músicos da orquestra foram acordados para gravar este trabalho. E às três da manhã, o disco foi levado a Estaline. Para honrar o seu talento, Estaline ofereceu-lhe dinheiro. Ela respondeu que agradecia, mas que iria dar o dinheiro todo aos pobres, até ao último rublo e que iria “rezar por todos os pecados cometidos contra o povo russo”. Estaline não a importunou. Ela nunca foi para o gulag. Mais tarde, na época de Khrushchev, ela é posta de lado mas cada vez que toca em público, os concertos estão cheios. Quando o público reclama um encore, em vez de tocar o piano, ela levanta-se, e recita poema de poetas dissidentes. O público não percebe nada do que ela diz, porque já não tem dentes, mas cada um entende o que quer.
O retrato de Maria Yudina funciona como leitmotiv no escritório de Estaline. Como o fio condutor desta história entre o poder que corrompe e a luta para permanecer intacto.

Entrevista realizada por Emmanuelle Frois